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Hot Fast and Pos-Human

Drop d Contemporary (PT)

2010

Aldo Peixinho

O recente despoletar da crise a nível mundial desencadeou uma consciência colectiva sobre a situação drástica e afunilante que cada vez mais é dramatizada pelos media. Hoje, vivemos numa época extremamente conflituosa onde os paradigmas exibidos são constantemente questionados, postos em ‘xeque’, e aqui, a arte tem uma papel determinante. Perante a amalgama de situações, sensações e vontades, tem o poder de causar uma interrupção, uma interrogação ou mesmo uma consciencialização sobre tudo o que lhe interessa, suscitando novos modos de ver e encarar as diferentes realidades mundiais que se reflectem inevitavelmente em microcosmos locais e pessoais.  O vazio que se sente (a que alguns chamam "buraco"), o profundo buraco que todos nós hoje enfrentamos, é como uma mística espiral, sem fim nem fundo, interminável, que não olha nem sente, apenas progride, evolui, atingindo tudo e todos. Por onde passa apaga a luz, deixa-nos na escuridão, numa miséria aparente, como que fossemos sugados para um destino a nós desconhecido. A conjugação de uma consciencialização sobre o estado do mundo actual, da arte, das pessoas e suas vivências com uma realidade vivida e presenciada sobre como é o próprio - ser português[1] -, acaba talvez inconscientemente, por provocar interrogações e devaneios, em formato equações sobre relações, realidades, estados de alma e modo de vida. 

Aldo Peixinho não é imune à realidade que o rodeia, nem tão pouco fica inerte ao que acontece, assim, em ‘Hot, fast and Post-Human’ ele tem a audácia de, através de peças fortes e vigorosas, quer ao nível estético quer matérico, provocar subtilmente o espectador, no sentido de o instigar a saber o que está para além destas. Esta exposição ou exercício de reflexão, é um indício, um vislumbre de um pensamento interrogante sobre as diversas dicotomias e disfonias que encontramos no mundo sensorial e palpável das conexões vivenciadas. Metaforicamente, o “buraco” aqui referido, é nos apresentado através do diálogo entre as obras Endless Circle e Intro. Endless Circle apresenta uma acção mecânica repetitiva, que modela através de feixes de luz um círculo espiriforme, uma ilusão a uma circunscrição de um buraco, onde simultaneamente somos absorvidos pelo seu ruído vertiginoso, continuo e extenuante, que nos transtorna de forma abusiva. Já a peça Intro tem origem num still cinematográfico de Murder by Contract de Irving Lerner. Colocada na escuridão da sala, sobre o chão, por uma luz intermitente vislumbra-se um olhar de um outro alguém num outro lado de um mesmo “buraco”, gerando-se possivelmente um momento de tensão. Este interveniente perante a sua postura, apresenta uma acção de perscruta, talvez numa ânsia de encontrar uma saída, uma solução. Esta peça acaba também por realizar uma interligação entre o vídeo e as peças Avoid e Exhausted. Estas apresentam-se como estruturas que negoceiam a recusa desta repressão continua, ‘afincas’ numa estrutura impermeavelmente calafetada, digladiam continuamente contra imposições e regras, procurando progredir incessantemente como numa recusa ao inerte, estático e negativismo enraizado, quase gritando ‘Estou vivo[2]’. Perante a postura de Peixinho e as obras em questão, poderíamos afirmar tal como Beckett “o caos, ele está em nosso redor e a nossa única hipótese é deixá-lo entrar, pois a única hipótese de renovação consiste em abrir os olhos e ver, mesmo sem compreender!”, temos que reagir, disputar perante qualquer atrocidade ou obstáculo com que nos deparemos. Não interessa o resultado final. O fulcral é caminharmos, avançarmos; É procuramos incessantemente uma direcção ...